Pedaço de mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Comentar poesia além de grande engodo é de péssimo gosto. Por isto, apenas escrevo os versos do Chico a título de epígrafe daquilo que a vida encarregou-se por si mesma de inscrever nos meus ossos.

Homem que sou, nunca captei os sentidos do revés de um parto, até que me descobri num instante sem fim arrancando do meu quarto um amor que morreu. Saudades do que foi e já não é mais. Nunca mais.

Esta a nossa vocação e destino: espalhar vida com nossos pedaços arrancados e, na caminhada errante de exilados na terra, fecundar uma triste beleza no jardim do mundo. Toda beleza é grave e tristonha…

A ironia mora escondida sorrateira neste quarto quase arrumado e somente quando vamos nos deixando morrer de uma vez por todas, metades sem conta caídas pelo caminho é que, de fato, vivemos.

Tal como aquela história do evangelho, da semente que se encontra ao morrer, numa aposta vazia e áspera, na espera cega pela árvore frondosa que virá. E que será.

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~ by Marcio Anhelli on January 27, 2008.

5 Responses to “Pedaço de mim”

  1. Não existe melhor conhecimento de si mesmo, do que quando saimos da mais profunda cova…dai então que aprendemos a diferença entre o que éramos e o que passaremos a ser, nada de repetições…o negócio é ir, seguir o fluxo com outra cara. Amei ler o que vc escreveu, embora triste, há uma beleza doída que não pode deixar de ser linda… beijocas

  2. Que certamente será!

  3. Mais tarde quero ver como epígrafo por aqui algum poema que fale da alegria restaurada, porque essa música do Chico é linda, mas tão triste…

  4. Estou adorando o que estou lendo.

    sorte no “palavreado livre e honesto” que muito agrada.

  5. Vejo que não tem escrito no seu blog…
    Talvez não tenha tido tempo, ou talvez, seja momento de calar…
    Eu estou passando por um momento assim, descrito no seu blog. Dói desenfreadamente. Não conforta saber que não sou a única mortal. Dói mais, mas ao menos, me sinto normal.
    Volte a escrever quando der…

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